Atualizado às 19h36min.

RODRIGO MATIAS
Em entrevista a Antônia Fontenelle, no programa “Na Lata”, que foi ao ar no dia 06 de agosto no YouTube, o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel afirmou: “Não saia de fuzil na rua, não. Troca por uma Bíblia, que se você sair, nós vamos te matar”.
Uma declaração forte, não é? Como tem sido o costume do atual governador.
Eu admito, ao ouvir a declaração pela primeira não me soou bem, achei intolerante e abusiva. Aí escutei a segunda vez, tentando pensar com a cabeça do governador, era chocante ainda, mas já comecei a pensar em alguns princípios.
Um carpinteiro nazareno disse, há mais de dois mil anos atrás, que: “(…) quem vive pela espada, morre pela espada”. Ao ouvir a declaração do governador pela segunda vez, me lembrei disso. Ainda assim, a declaração não soou bem. Ao ouvi a declaração pela terceira vez, fiz a comparação que leva o título dessa coluna.
A Bíblia, no Brasil, é o livro sagrado de duas subdivisões do cristianismo, o catolicismo e o protestantismo, além de porções dela ser utilizada por outros credos religiosos, como o espiritismo kardecista, umbanda e outros. Hoje a Igreja Católica Apostólica Romana é a maior denominação no Brasil, seguida de várias denominações oriundas do protestantismo.
Sempre gosto de afirmar que cristianismo e religião são coisas diferentes. Cristianismo, para mim, é um estilo de vida. Porém, a religião, no dias atuais, perdeu-se e distancia-se muito da sua raiz etimológica, “religare”, que significa “tornar a ligar”, no caso, a Deus.
No entanto, é preciso entender algumas coisas sobre a relação da religião e o carpinteiro nazareno, chamado Jesus. Em primeiro lugar, a religião, e religiosos, que Jesus sempre foi oposto era o judaísmo legalista e farisaico de sua época, que era uma aversão, uma distorção, da religião que Deus havia revelado a Israel e pela qual os profetas tanto lutaram. Logo, não se pode dizer que Jesus é contra a religião em si, mas contra aquelas que são legalistas, meritórias e contrárias à palavra de Deus, praticada em sua originalidade.
Em segundo lugar, Jesus participou daquilo que era certo na religião judaica de seus dias, foi um judeu legítimo: sendo circuncidado, aceitou ser batizado por João, foi ao templo nas festas religiosas, orou, deu esmolas, mandou gente que ele curou mostrar-se ao sacerdote, entre outras práticas. Terceiro lugar, seu seguidores, os apóstolos, logo se organizaram em comunidades, elegeram líderes, elaboraram declarações de fé, escreveram livros que virariam Escritura, recolhiam ofertas, tinham locais (casas) para se reunir – ou seja, tudo que uma religião tem.
Em quarto lugar, é verdade que o cristianismo através dos séculos se corrompeu em muitos lugares e épocas. No entanto, todas as vezes em que isto ocorreu, deixou de ser a religião verdadeira para ser uma religião falsa. Portanto o correto é dizer que Jesus odeia o legalismo religioso, inclusive dentro do cristianismo. Porém, é injusto e falso colocar Jesus contra toda e qualquer forma de cristianismo.
Eu, realmente, acredito que houve distorção de propósito na declaração do governador, mas não de princípio, por mais duro que seja admitir. Quem vive pela espada, morre pela espada. Ou, parafraseando, quem vive pelo fuzil, morre pelo fuzil. Mas essa via é de mão dupla, é sempre bom lembrar.
A religião original não é sinônimo de morte, pelo contrário. Suas variações no século XXI, bem como os seguidores, evitando generalizações, tem sim sido o contrário da vida. O governador Wilson José Witzel (PSC) é praticante da religião católica, muitas de suas decisões são dentro da ótica dessa doutrina, por mais divergências que surjam.
A polícia militar do Rio de Janeiro nunca matou tanto, segundo dados do site do Instituto de Segurança Pública (ISP) do governo do Rio, em 2018, policiais mataram 545 pessoas na Baixada, recorde histórico absoluto. Em todo o estado, policiais mataram 1.532 pessoas em 2018. Um recorde histórico. Em janeiro de 2019, policiais mataram 160 pessoas, aumento de 82% sobre o mês anterior.
Em comparação, o mesmo relatório do ISP afirma que houve uma queda de 18% na taxa de homicídio doloso no estado, em janeiro deste ano. Uma das primeiras declarações que o atual governador do Rio de Janeiro fez foi que “O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro”.
Será que essa política vai resolver a questão de violência no estado? A bíblia é a solução? O que você acha? Deixe um comentário e até a próxima semana.
Foto: Ilustrativa.


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