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Foto: Reprodução.
RODRIGO MATIAS

Atualizado às 21h48min.
Não gosto de escrever com raiva. No entanto, admito, alguns dos meus melhores textos saíram instantes depois de vivenciar uma forte emoção.
A cada 23 minutos, no Brasil, um corpo negro é estendido no chão. E não me venha com essa palhaçada agora de que “toda vida importa” para tentar ser contra argumentativo do movimento #VidasNegrasImportam estou sem tempo, irmão. Quando qualquer “outra vida” morrer com um joelho no pescoço, falando que não consegue respirar, você levanta uma bandeira aí. Quando uma menina, e seus pais, de qualquer “outra vida” tiveram o carro cravejado de 80 tiros.. eu tô dizendo 80 tiros, você levanta uma bandeira aí. Ou quando qualquer “outra vida” de uma criança estiver em casa e levar 70 tiros numa incursão policial. Foram 70 tiros e por causa disso morrer. Você levanta uma bandeira aí. Ok?
Quando as pessoas dizem “todas as vidas são importantes” em resposta a “vidas negras importam”, elas não estão simplesmente abrindo os braços para a maior diversidade da humanidade. Em vez disso, eles estão fugindo da conversa, segundo o ativista David Bedrick.
Além disso, ignora a violência que afeta especificamente os negros e ignora os indivíduos e as estatísticas que mostram que há um problema com o modo que são tratados.
Eu disse que estava com raiva. Então… sem tempo, irmão! Sou negro, acredito na necessidade de se manifestar. Passeatas, manifestações de todos os tipos, mas sou contra a depredação do patrimônio público e/ou privado.
NÃO! Não concordo com a depredação de patrimônios em manifestações. Seguir o caminho do Dr.  King, sim. Depredação de patrimônio público e seguir o caminho inicial de Malcom X e do movimento Black Panthers, não.

A luta de Malcolm X, inicialmente, foi aderida por muitos, mas não a considero, por exemplo, mais honrosa do que a de Martin Luther King Jr. Apesar de propostas diferentes, eles lutaram na mesma trincheira pelos direitos civis dos negros norte-americanos. Porém, Malcolm X, que defendia o uso da violência na luta por justiça, não enxergava do mesmo prisma que Luther King, que era um pacifista. Ambos desempenharam importantes papéis na liderança da comunidade negra norte-americana. Porém, não concordo com os métodos iniciais e a ideologia de Malcom X, apesar de não negar a importância histórica dos atos e do que ele representou.
A fome de justiça deve ser proporcional ao desejo de paz. Caso contrário, corremos o risco de nos tornarmos meros justiceiros com sede de vingança. Da mesma forma, não podemos pautar pela paz e abrir mão da justiça. Direitos não podem ser negociados, mas plenamente desfrutados. Ou seja, não havendo a clara disposição do opressor em reconhecê-los, o oprimido não terá alternativa senão lutar para conquistar. Isso é um fato, triste, mas um fato.
A luta é legítima, mas eu me pergunto se todos os métodos são. Descredenciar quem luta por direitos é atentar contra a sua dignidade intrínseca e, por conseguinte, tocar na glória de quem o criou.
Eu entendo que o pacificador não lança querosene na fogueira, todavia, também não apaga o pavio que fumega, nem esmaga a cana já envergada, “até que faça triunfar a justiça” (Mt.12:20). Ainda que não seja propriamente a voz dele nas ruas, ele não invalidará suas reivindicações, pois compreende a sua legitimidade. O grito que ecoa nas avenidas, ele fará ecoar nos corredores do poder, incendiando a consciência dos poderosos e tirando-lhes o sono. Mais uma vez eu repito: não concordo com métodos agressivos de luta, mas entendo sua relevância.

Assistindo às manifestações populares, tanto nos EUA por conta do assassinado de George Floyd, quanto no Brasil pelas mortes de João Pedro, sou tomado pela mesma sensação de Cristo que “vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt.9:36).
O mundo carece de pastores! Gente que agregue esperanças. Que denuncie a pretensão dos que se locupletam da ingenuidade das classes desfavorecidas. O mundo já está farto de profetas palacianos, que, inescrupulosamente, usam sua influência no púlpito e nas redes sociais para manter seu povo refém da ignorância e da manipulação de seus dominadores.
Como bem denunciou Jeremias: “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade. E curam superficialmente a ferida da filha do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jr.6:13,14).
Oro para que Deus levante nesses dias homens e mulheres do quilate de Luther King e Rosa Parks para peitar o opressor e oferecer esperança aos oprimidos, de forma pacífica. Para que não seja necessário se levantarem uma nova geração de Malcom X e do movimento Black Panther para agirem com violência.
Estoque fé e distribua esperança! O que você pensa sobre isso? Deixe um comentário e até a próxima semana. Aqui é participação democrática. Participe e nos mande um e-mail: [email protected].


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