Atualizado às 22h11min.


EDITORIAL

A jornalista e escritora, Melissa Carísio, é nossa nova colunista aqui no SFO. Ela, que é de Volta Redonda-RJ, agora mora na Polônia. No primeiro texto da coluna ela conta um pedaço da Europa nazista da segunda Guerra Mundial. Aproveite a leitura.
Jean Alves – Diretor Executivo
SUL FLUMINENSE ONLINE

 


POLÔNIA

Se você se concentrar bem, ainda é possível sentir o cheiro do cigarro dos oficiais nazistas ecoando pela estrada de terra e pedras, fundida aos trilhos da grandiosa Auschwitz-Birkenau. Não é preciso muito para sentir a cruel presença dos sete mil uniformes verdes escuros alemães e de suas botinas pretas que pisaram em milhões de vítimas. Este foi o maior crime cometido contra a humanidade e Auschwitz resiste para provar isso.

Os livros de história nos contaram, ao longo da vida, sobre a triste história dos sete milhões de judeus que perderam suas vidas e seus entes queridos da forma mais humilhante, degradante e revoltante possível. Mas só estando em um campo de concentração alemão, que conseguimos entender a dimensão da crueldade humana. Ali não havia nada de loucura. O horror virou um espetáculo.

Em uma sala fria e mal iluminada do campo, a imagem que mais me chocou, foi de um casaquinho vermelho de um bebê recém nascido, hoje exposto como apenas um dado. Poderia ter sido o meu filho, se eu tivesse um. Ou o seu, se você estivesse no lugar e horas erradas, simplesmente sendo uma fraca desculpa encontrada pelos antissemitas para ser eliminado.

Auschwitz nos conta a todo o tempo o que aconteceu com aquele bebê, mesmo que a vontade seja de fechar os olhos e chorar de vergonha. As sete toneladas de cabelo humano (que eram retirados dos corpos dos cadáveres ainda quentes para serem vendidos), as malas que antes tinham nomes e depois se transformaram nos números dos prisioneiros deportados e os incontáveis pares de sapatos, que preenchem uma sala inteira, do chão ao teto, são provas de que a morte nunca foi tão triste.

Mal arquitetado

Por aqui entravam os comboios com os judeus deportados para o extermínio. O portão também era posto de guarda da SS. (Foto: Melissa Carísio)

Os campos de concentração não surgiram de última hora. Desde 1933, com a chegada de Hitler e do partido Nacional Socialista ao poder alemão, que foram condenados ao trabalho escravo, judeus, eslavos, poloneses, ciganos, homossexuais, negros, adversários políticos alemães, Testemunhas de Jeová e vários outros povos de diferentes nacionalidades e que estavam sob domínio nazista. À medida em que a Alemanha ia invadindo e conquistando outros países ao longo da guerra, foram sendo criados outros sistemas prisionais em cada novo pedaço de terra. Auschwitz-Birkenau (antes Oświęcim, cidade polonesa cujo território foi invadido para abrigar o campo) foi o maior de todos, mas trabalhava em conjunto com Auschwitz I e Auschwitz III.

As condições de vida nos campos eram assustadoras e chocantes. Os meus olhos não queriam ver a verdade diante de mim. Os prisioneiros dormiam em beliches forradas com palha, sem travesseiros; Os que dormiam em colchões, diziam que “eles se mexiam sozinhos”, tamanho o número de insetos e ratos dentro. Em cada andar da beliche cabia cerca de seis prisioneiros, mas dormiam juntos aproximadamente 15.

No período de superlotação, um cobertor era dividido para várias pessoas. Haviam dois pequenos fornos que serviam como aquecedores, mas estes não conseguiam fornecer a quantidade de calor necessária. O inverno polonês pode chegar a temperaturas de – 30°C. Os prisioneiros preferiam sempre dormir no topo, pois frequentemente sofriam de diarreia, devido à desnutrição. Mas estes eram mais prováveis que fossem morrer de frio. Tantas outras humilhações, assédios, torturas e assassinatos diários, numa escala de difícil imaginação.

O ódio pelos judeus falou ainda mais alto quando os nazistas se viram obrigados a encontrar uma solução e um destino final para o grupo étnico. Foi em 1941 que começaram a surgir os primeiros testes com o pesticida Cyklon B. Nessa época, surgiram os primeiros protótipos das câmaras de gás, que foram construídas exclusivamente para eliminar todas as pessoas que fossem contrárias à ideologia ariana.

Foi assim que Birkenau ficou conhecido como o maior centro de extermínio de judeus  do mundo. No local haviam quatro câmaras de gás muito maiores que o protótipo de Auschwitz I. Esse é o maior campo de concentração nazista para prisioneiros de diferentes nacionalidades. Foram 69 mil judeus, 13 mil poloneses e 8 mil pessoas de outros países da Europa.

Os prisioneiros chegavam de diversos outros campos dispersos pela Europa em vagões de madeira (que inicialmente faziam o transporte de animais e cargas) e a viagem durava dias ou até meses. Sem água, espaço, ventilação, comida ou privacidade para realizar suas necessidades, os insetos, os ratos e as doenças logo seriam companheiros de jornada das mais de 80 pessoas que eram submetidas ao traslado.

A maioria não era registrada pela administração dos campos e muitas identidades foram perdidas ao longo da guerra. Ninguém sabia o que haviam feito para estar ali. (Foto: Victor Hugo Rocha)

Idosos, mulheres grávidas, pessoas doentes, crianças, deficientes físicos ou mentais eram já executados nas câmaras de gás e depois cremados em uma escala em massa. As câmaras e os crematórios foram todos destruídos pela SS à mando das autoridades alemãs para encobrir as provas de atentado contra a humanidade. Na época, poucos oficiais alemães foram julgados e condenados por seus crimes.

Ao todo, 1,3 milhões de pessoas morreram nos campos de concentração, sendo 1,1 milhão de judeus, 140 mil poloneses, 23 mil ciganos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos, 25 mil prisioneiros de outras nacionalidades. Tchecos, bielorussos, alemães, franceses, iugoslavos, ucranianos e pessoas de outros países ocupados pelos nazistas na Europa.

Para ler o restante do artigo e ver mais fotos, acesse meu site: https://brasilnamala.wordpress.com/

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