Atualizado às 22h27min.


VOLTA REDONDA

Como tema “Fraternidade e Superação da Violência” foi lançada pela Diocese Barra do Piraí/Volta Redonda, na tarde dessa quarta-feira (14) de Cinzas, a Campanha da Fraternidade de 2018. O lema da nova campanha da Igreja Católica é “Vóis sois todos irmãos”, como forma de valorização da vida.

Essa foi uma das explicações dada pelo bispo dom Francisco Biasin, durante a abertura oficial do lançamento. Além do bispo, estiveram presentes no lançamento o padre Juarez Sampaio, coordenador da Pastoral da Diocese; o presidente da OAB-VR, Alex Martins; o padre Nilson José dos Santos, coordenador diocesano da Pastoral Carcerária e presidente do Movimento Resgate da Paz; o padre Gildo Nogueira Gomes, membro da equipe de Dimensão Sócio-transformadora da Diocese; Sebastião de Oliveira, representante do Movimento Negro de Volta Redonda e a professora da UFF e assistente social, Áurea Dias.

O lançamento da campanha foi transmitido ao vivo para rádio católica (Sintonia do Vale). O bispo falou que os números da violência no país e, principalmente, no Estado do Rio de Janeiro, são “assustadores”. De acordo com o ISP (Instituto de Segurança Pública do Estado RJ), no mesmo ano no Rio foram registrados 6.731 assassinatos. Somente no interior do estado foram 1.549 mortes. Para o bispo “a violência não está somente na capital, região metropolitana e baixada”.

– Em Volta Redonda também temos miséria e injustiça social. Sabemos que não nascemos com o mal. Nascemos abertos ao bem e ao mal. O que provoca a violência é a sociedade que vivemos – analisou o bispo.

Dom Francisco lembrou que o tema da campanha é definido dois anos antes do lançamento pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Segundo o líder regional da Igreja Católica, é preciso mais envolvimento da sociedade, denominação e segmentos cristãos, com os evangélicos, espíritas e religiões de matrizes africanas, contra a violência.

– O problema atinge a todos. Se visitarmos nossos presídios vamos ver que a maioria são jovens, negros ou negras. A juventude é muito atingida pela violência. Podemos fazer um trabalho na difusão da cultura da paz e trabalhar também nos relacionamentos interpessoais. Ressalto que temos que focar no termo de irmão. Isso significar ter um pai comum. A partir disso viveremos a paz como deve ser – frisou Biasin.

Como será a divulgação?

O padre Juarez Sampaio, pároco de Barra do Piraí, explicou que a campanha disponibilizará material didático para o trabalho e conscientização. As 350 unidades da igreja na região irão trabalhar o tema. Seja nas missas, celebrações, núcleos, pastorais e catequeses espalhadas pela região. Não somente na quaresma, mas durante todo ano.

– Cultuamos a violência na maneira de viver. No que fazemos, como agimos, os filmes que vemos, games que jogamos (…) Vemos nas reuniões a PM dizer que não tem pneu, não tem motor. A Segurança Pública é um direito constitucional. Lembro que 40% dos encarcerados brasileiros são presos provisórios. Sabemos que o sistema prisional não recupera ninguém. Eles não são socializados aqui fora, quem dirá lá dentro. Precisamos trabalhar aqui fora para evitar que muitos caiam nesse caminho – ressaltou.

Questionados pelo SUL FLUMINENSE ONLINE a possibilidade da campanha chegar as comunidades mais carentes, como nos condomínios do “Minha Casa, Minha Vida”, onde acontecem constantes prisões e mortes, o padre Juarez afirmou que acontecem tentativas de se entrar nessas comunidades, mas ainda é um passo difícil de ser dado.

– A obrigação é do Estado de atuar nessas comunidades. A criminalidade se aloja, exatamente, onde o poder público não se estabelece. Claro que a igreja vai tentar chegar a todos os lugares e as pastorais sociais.
A igreja não vai eximir da sua responsabilidade – afirmou

O pároco de um dos bairros da cidade, onde existe um conjunto habitacional, revelou que os próprios membros da igreja têm medo de atuar nesses locais. O que acaba dificultando o contato com as diretrizes da campanha.

Falta políticas públicas?

(SUL FLUMINENSE ONLINE)

De acordo com o Dirigente da Pastoral Carcerária, padre Nilson José dos Santos, faltam políticas públicas eficazes para quem passa pela carceragem. Em Volta Redonda-RJ são 303 presos. Em Resende-RJ são 390, sendo que a capacidade é para 417 detentos. Sem falar no Degase, em que a capacidade é de 90 e temos 180 internos.

– É um barril de pólvora. Não temos nenhuma política pública para depois que eles deixam a carceragem. É uma prática desumana. A comida é feita em Japeri, para Volta Redonda. Muitos falam que a comida chega estragada. É um drama muito sério que precisamos enfrentar para que a violência, até nesses casos, seja combatida – lembrou.

Durante o lançamento a professora universitária e assistente social, Áurea Dias, falou a violência contra o negro e a mulher negra. Seja física, psicológica e trabalhista.